Drama

23 de jan de 2014

Quero saber se já se olhou no espelho e gostou do que viu refletido. Consegues te reconhecer ali? Digo mais: já olhou para dentro de ti e gostou do que viu? É mesmo tu? Responda-me, já que
eu não te reconheço mais. Por onde anda a sua sensibilidade? Sei da minha, que anda mais aflorada do que nunca. Voltei a ser um drama grego ambulante. Apesar de algumas cicatrizes, gosto disso.
Gosto de me comover com as pequenezas. Porém odeio ter os olhos inundados, prontos para chover, quando escuto falar do que passou. A sombra do passado me persegue, deixa seus rastros. Foi
lindo! Lindo de uma maneira que eu jamais pensei que seria... Deu frutos, deu calma; enraizou. Mas passou... Às vezes dói deixar soltar.

Afinal, porque te falo dessas coisas? Logo você que não mais entendes disso. Talvez seja para lembrar que tu também estavas lá... Um baluarte de ouro, aliás. Uma das memórias mais bonitas, que transformou-se em sépia, desbotou.

O caminho ramificou. A gente sabia disso. O que dói é não te ver segurando a minha mão quando eu precisei, apenas para não me deixar tropeçar. Tu me prometeste, lembra? Prometeu também me
iluminar com as estrelas que brilhariam mais. E o amor, que prometeu me mostrar quando eu esquecesse como é compreender o difícil, cadê?

É inútil pensar nisso agora, enquanto tu tomas a outra direção... Segue por um caminho distante que você jura ser fácil. Eu segui por outro; confesso que por vezes me sinto desamparada. Os pés
resvalam, o sorriso some e o que tenho que fazê-lo é mostrá-lo, apesar de tudo que sangra. Mas entre tropeços e erros eu sempre vou. Rezo para que logo amanheça.
Tá frio aqui, não sei se percebes. Pergunto-te: Possui algum cobertor aí? Eu conquistei alguns. Quentes, lindos, fofos e suaves. Mas muitos são daqueles que caem no chão no meio da madrugada. E aí, esfria...


Tu és dona de si. Merecedora de cada consequência; de cada resultado por seus atos. Alguém me disse certa vez (acho que a mesma pessoa a quem escrevo essa carta) que tinha medo que eu
perdesse a minha inocência. Ironicamente, essa mesma pessoa contribuiu para isso. As decepções e indiferença dilacera(ra)m aos poucos.
Tu pareces independente, bem acompanhada, 'feliz'... No seu sempre jeito torto de ser. Torço para que continue. Leia se puder, esse bilhete desabafórico em cima da mesa. Fechei a porta quando
saí. Espero que entendas. Fechei.
Guarda mais uma coisa: eu estive por aqui e não mais voltarei.


Despeço-me de ti. Despeço-me de mim. Despedaço-me.

14 comentários:

Bruna Endo disse...

amei o texto!
"Tu és dona de si. Merecedora de cada consequência; de cada resultado por seus atos." aplaudindo daqui!!!
www.crisedosvintepoucos.blogspot.com

Bernard Freire disse...

Belo texto. Faz um forte se tornar fraco (se houver forte). Tem uma sensibilidade que vaga pelos teus sentimentos e pensamentos.
Continue escrevendo assim, e se outros te ferirem, a tendência de seus textos é sempre melhorar.

Beatriz disse...

Que dor! Sei bem como é isso e você colocou exatamente tudo no papel/post, me fez lembrar de quando eu mesma o fiz. Belas palavras, sensíveis, duras, mas muito reais. A dor tem dessas coisas, traz consigo o dom de criar textos maravilhosos.
Beijoss

Daniela Filipini disse...

Saber quem se é é uma dádiva de poucos!! A maioria só imagina... E não compreende, e não aceita.. Isso traz infelicidade, frustração.
Se cada pessoa se conhecesse e se aceitasse tal como é (claro, tentando melhorar cada vez mais), todos seriam mais plenos.

Utopia, será!?

Tomara que não!!


Até mais, Dani.

Juliana Guedes disse...

Amei o texto, me identifiquei muito sou sensível sabe não dramática.
beijos

Jéssica Teles disse...

Sempre me encanto e identifico com seus textos (:
Adorei.

Beijo, beijo!
Goiabasays

Borderline Transtorno de Personalidade disse...

A sua forma de escrever é muito linda! Identifico-me e transbordo-me ao sentir suas palavras através de meus olhos, como se fossem perfume saboreado pelo meu olfato.

Raquel disse...

Os caminhos se bifurcam, e o problema é que a gente sempre insiste em olhar pra tras e ficar carregando o tal do "se" no nosso coração... coisas da vida, quem nunca se viu assim no espelho, né?

Vanessa Fassheber disse...

Que texto lindo!!!! Fiquei emocionada!

Larissa V. disse...

São as belas dores da vida, quando descobrimos que nossos líndos castelos de cartas foram construídos em cima de finas e mutáveis areias.
Teu texto me lembrou um negócio que li faz pouco tempo, de peças de cerâmica que eram consertadas com ouro. Dizem que as peças são lindas exatamente por terem sido quebradas.

Besos!

Gabriela Furtado disse...

Não sei se pelo momento em que me encontro, senti a necessidade de ler seu texto várias vezes. Precisei repetir a leitura porque me encontrei muito nele e a cada vez em que reli, me encontrei mais. Lindíssimo!
P.s lembrei muito da música A LISTA do Oswaldo Montenegro.

João52 disse...

"Despeço-me de ti. Despeço-me de mim. Despedaço-me." adorei...

Passo para desejar uma Páscoa Feliz

Saudações Poéticas

Vulgo Emilie {@hisakurasan} disse...

fiquei imaginando se era real ou não... bom, interpretei de dois jeitos: 1. de você pra você mesma. 2. de você pra outra pessoa. mas nas suas opções o texto é triste.

Nanda disse...

"Alguém me disse certa vez (acho que a mesma pessoa a quem escrevo essa carta) que tinha medo que eu
perdesse a minha inocência. Ironicamente, essa mesma pessoa contribuiu para isso."
Já vi essa história... pior que é bem assim, as pessoas que mais amamos são as que acabam nos proporcionando as maiores quedas também. Belo texto!







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